quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Lá na padaria

O Dito me cumprimentou e sentou ao meu lado na padaria. Nunca temos muito o que conversar. Mal nos conhecemos. Ele conta alguma coisa que não me interessa e eu respondo qualquer coisa em que ele não presta atenção. Ou então é o contrário. É sempre assim. Não me interesso muito em saber o pasto de quem ele anda roçando e quanto está cobrando, ou que a filha de alguém que eu nem conheço já anda biscateando por aí.
Hoje ficamos olhando pra televisão, enquanto mostravam dois prédios que caíram atrás do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, muito longe daqui e do frio que está fazendo esta noite.
- Aposto como foi você que vendeu areia pra essa obra, há uns duzentos anos - eu disse pra ele, tentando ser engraçado. Ele nem ouviu, pediu mais um café pra Marcela, que ia passando com uns pratos sujos e falou que ele ia ter que esperar.
A repórter, enchendo linguiça, diz que os prédios caídos tinham aberto um buraco naquela parte da cidade.
Como pode ?, fico pensando. Não é a ausência dos prédios que faz um buraco naquele lugar; foi, muito antes, a presença deles que formou um volume inquieto e agressivo no espaço e na paisagem, e esse volume se pretendia definitivo. Agora, alguma coisa volta a ser mais próxima do que era originalmente.
Prédios são feios. E parecem perigosos. Não gosto de prédios.
Penso em comentar isso com o meu vizinho de balcão, mas o café dele acaba de chegar e ele já está fofocando alguma coisa com a atendente que voltou e está mais interessada no serviço dela que nas intimidades que ele disfarça.
Prédios subindo ou caindo, tanto faz, é uma pena que não aprendemos a dividir o chão de forma justa e equilibrada.
O Dito termina o café e olha para mim. Acho que ele pode estar pensando alguma coisa parecida. Então diz:
- Me dá uma carona ?
É sempre assim. Então pagamos e vamos embora.

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