Por volta das nove da noite da quarta-feira, 21 de dezembro de 2011, eu era o único paciente no saguão de espera do velho prédio do Instituto Penido Burnier, na avenida Andrade Neves, centro de Campinas, a alguns quarteirões da cratera que sobrou da demolição da velha e detestável rodoviária da cidade; e a outros tantos, em sentido oposto, da antiga e bem conservada estação ferroviária.
Na noite anterior, comecei a sentir alguma dor em meu olho direito. Achei que fosse algum cílio ou cisco, e fui me deitar. Quando acordei, reparei que a dor continuava e que os vasos na área branca do olho estavam bem avermelhados. Não dei importância, lavei o rosto e atravessei o dia.
No início da noite, ao passar em frente a um espelho, notei meu olho ainda mais avermelhado. Aproximei o rosto pra ver se encontrava alguma coisa que pudesse ser removida e percebi que parte da borda da íris estava esbranquiçada e levantada. Mas eu estava enxergando perfeitamente.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi Tostão, o jogador de futebol: descolamento da retina. Lutadores de boxe também acabam sofrendo disso com alguma frequência , por conta das porradas. Mas eu, quando muito, ultimamente, só levo pancadas em brincadeiras com os cães. Depois me lembrei de meu avô materno, que sofreu de glaucoma durante os últimos anos de vida, tendo-a terminado praticamente cego. E uma das causas do glaucoma é a hereditariedade.
Telefonei pra minha mulher, em São Paulo, e foi ela que se lembrou do velho instituto, referência nacional em oftalmologia. Ela me disse para não deixar de ir. Mesmo assim, pensei em não ir, mas tanto o caso do meu avô quanto o do velho craque da Copa de 70 me fizeram pensar melhor. Como a maioria dos brasileiros, eu sei que Tostão teve que encerrar sua gloriosa carreira no futebol por causa do descolamento da retina sofrido em campo. E para o meu nada invejável ou glorioso trabalho com fotografia, uma lesão como essa poderia ser igualmente fatal. E lá fui eu.
No caminho, ainda antes de entrar na cidade, o rádio tocou alguma coisa de que gostei, uma dupla com Amaraí, o mesmo de Belmonte e Amaraí. Gosto muito da gravação que fizeram de ‘Mercedita’, e devo ter um CD da dupla ainda, em algum lugar. Cheguei a fotografar Amaraí há alguns anos, quando tocava acompanhado por um de seus filhos. Mas não consegui ouvir bem o nome de seu parceiro na música que fui ouvindo no rádio, a caminho do hospital. Gostei das sanfonas. Das vozes, também, mas, principalmente, das sanfonas. Não tem instrumento mais bonito que sanfona.
Estacionei o carro no pátio interno do velho prédio do instituto, entre os troncos de duas imensas e antigas árvores. Uma placa logo ao lado dizia que o instituto existe desde 1920. Mas o prédio não é tão antigo assim. As árvores, sim, talvez ainda tenham conhecido uma velha Campinas, anterior à República, e os velhos casarões e as famílias e os viajantes da velha Andrade Neves, que ainda hoje preserva um tanto de sua antiguidade. Algumas espécies de árvores sempre podem ser mais que centenárias. Não sei o que eram aquelas. Não reparei em nada além do vulto largo e escuro dos troncos das duas, pesando sobre a noite tranqüila e o chão coberto de brita.
Um gato branco descansava tranquilamente, pouco atrás de onde estacionei, numa área do terreno onde chegava a luz de um poste. Recolhia uma das patas dianteiras dobrada sob o peito. Moveu a cabeça para me assistir descendo do carro, com o olhar superior e desinteressado dos gatos, mas ainda estava no mesmo lugar e na mesma posição quando fui embora, muitos minutos depois.
Havia três moças sentadas num sofá da recepção. Três moças gordas e bem humoradas. Elas conversavam e não dava para saber qual das três poderia ter um olho vermelho ou um potencial descolamento da retina como eu. Devido ao horário, apenas a luz indispensável estava acesa por ali, dando ao ambiente todo um ar bastante nostálgico e cinematográfico, e logo me vi envolvido por uma certa regressão ao tempo mais remoto daquelas paredes altas e móveis antigos. A própria conversa das três mulheres contribuía pra isso. Me senti dentro de um velho filme da Vera Cruz ou coisa parecida.
O recepcionista me atendeu imediatamente. Anotou meu nome, idade, profissão, e outras coisas, em duas pequenas fichas. Depois me pediu pra assinar uma delas. É bastante simples responder ‘fotógrafo’ quando perguntam minha profissão, mas isso não quer dizer que eu me sinta exatamente um. Pensava nisso, quando ele me perguntou:
- O que você tem ?
- É o que eu pretendo saber quando sair daqui.
Ele se levantou e olhou para o livro que eu havia trazido para enfrentar a espera, repousado sobre o balcão. Então me indicou o espaço todo ao redor:
- É só esperar.
O médico apareceu e chamou uma das moças. Duas se levantaram e seguiram para o consultório, logo no início do imenso corredor de luzes apagadas.
Caminhei até os fundos e atravessei uma porta alta e cheguei a um pátio iluminado pela própria noite. De um lado, na direção da Andrade Neves, havia uma outra ala da clínica, que estava fechada. Acima de mim, à minha frente, o volume maciço e largo do velho prédio, de três ou quatro pavimentos, cheio de janelas apagadas. Logo voltei para dentro, atravessei o saguão, e me sentei num dos bancos de madeira, à entrada, do lado de fora. Uma das lâmpadas fluorescentes, acesas, estava logo acima; era hora de sentar, ler, e aguardar a minha vez.
Levei comigo o livro de ensaios do antropólogo Pierre Clastres, ‘A sociedade contra o Estado’. Era um momento tão ideal quanto qualquer outro pra ‘ouvir’ a conversa do velho e querido Clastres.
A moça que ficou de fora estava agora de pé, logo ao lado, conversando com o recepcionista, sob a noite antiga do centro de Campinas. Ela contava coisas pessoais, com o sotaque acentuado do interior de São Paulo, uma história qualquer de raiva e ciúme por que estava passando. Ele estava apoiado na parede, com uma das mãos no bolso da calça e isso também pareceu igualmente antigo. Era como se toda a minha visão das coisas estivesse deslocada no tempo. Ou talvez fosse apenas um olho dolorido.
Me voltei para o livro:
“Supõe-se que ninguém deixe de pensar na dureza da lei. Dura lex sed lex. Diversos meios foram inventados, segundo as épocas e as sociedades, a fim de conservar sempre fresca a recordação dessa dureza. Entre nós, o mais simples e recente foi a generalização da escola, gratuita e obrigatória. A partir do momento em que a instrução se impôs a todos, a ninguém mais assistia o direito de, sem mentira – sem transgressão -, alegar o seu desconhecimento. Pois, por ser dura, a lei é ao mesmo tempo escrita. A escrita existe em função da lei, a lei habita a escrita; e conhecer uma é não poder mais desconhecer a outra.”
Isto e a moça, ao lado, falando mal do homem que a importunava. Disse que ficava com vontade de matá-lo. Pensei no quanto ela devia estar mais próxima dos programas de TV que mostram diariamente crimes passionais do que daqueles pensamentos nas páginas abertas sobre meus joelhos. Então, ela disse:
- Mas o que me irrita é o que acontece entre mim e ele...
‘Entre mim e ele’. Português raro pra quem acompanha crimes passionais na TV. Aquela moça era instruída. Logo, não podia se furtar ao conhecimento das leis e de sua dureza. Era menos provável que matasse alguém e se tornasse protagonista de um daqueles programas. Mas isto foram apenas especulações rápidas, e, mais que isso, preconceito puro. As duas outras moças apareceram e o médico gritou meu nome lá dentro. Entrei no consultório e ouvi a mesma pergunta outra vez:
- O que você tem ?
O que me fez imaginar que boa parte dos pacientes que vão a hospitais já chegam com o próprio diagnóstico. Eu não tinha o meu.
- Meu olho amanheceu vermelho e dolorido e agora está com uma estria meio esbranquiçada.
Me mandou sentar com o queixo apoiado naquele aparelho meio esquelético, a testa freada por uma cinta fina. Uma das gordinhas deve ter experimentado a mesma coisa um pouco antes. Ele acendeu uma luz e me pedia para movimentar o olho de um lado a outro. Tocou minha pálpebra. Nunca gostei de gente estranha tocando em mim. Mesmo médicos. Não sinto conforto algum em contato físico, com exceção do amor. Mas não pensei nisso na hora, apenas afastei o rosto por impulso. Ele disse alguma coisa, voltou a me tocar a pálpebra e continuou o exame.
O silêncio parece se estender sozinho, nessas horas, criando suspense. Médicos são deuses de um certo suspense, de muito conhecimento, e do vasto território das possibilidades que ignoram.
O calor da luz do aparelho também me incomodou. Tenho convivido tanto com cachorros, há tantos anos, que acho que me comporto um pouco com médicos como eles com veterinários.
Meu olho esquerdo também foi examinado.
- Não é nada. Só uma inflamação.
Disse o nome clínico da área afetada pela inflamação mas não o entendi. Disse que passaria logo. Havia umas duas dúzias de caixas de colírio idênticas, enfileiradas sobre a mesa dele. Pegou uma e anotou na própria embalagem quantas vezes eu deveria pingar, durante cinco dias. Recomendou compressas de água fria. Então olhou para o livro que eu havia trazido, sobre a mesa, ao lado do pequeno exército de colírios. Olhou para mim. Eu e Pierre Clastres no velho prédio de um antigo instituto campineiro, a algumas centenas de metros da velha estação ferroviária. As noites são sempre carregadas de antiguidade.
Como eu disse antes, ao sair, lá estava o gato, na mesma posição, no mesmo lugar.
As três moças haviam partido. Levaram com elas, para sempre, suas histórias e seus futuros, que jamais conhecerei.
Entrei na velha caminhonete suja de terra, poeira e bosta de vaca e voltei a atravessar a cidade, até deixá-la para trás. As ruas sem muito movimento sob a noite que conhecem tão bem.
(Foto: Avenida Andrade Neves em 1930, com a estação ferroviária ao fundo - Acervo Municipal de Campinas)

((!!!!!!)) Um buquê de exclamações para você.
ResponderExcluirLi e vou sair correndo. Bjo
Ahhh Edu Campos só vc mesmo pra 'brincar' com as palavras dessa forma: descrição, antropologia, história do cotidiano, elementos diversos que vão se compondo num texto muito bem escrito!!!! E pelo que entendi tudo acabou dando certo...
ResponderExcluirTudo certo, Clau. Tirando a miopia e a idade, continuo com 'minhas vistas' em ordem. E Campinas continua envelhecendo a vinte quilômetros daqui.
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