Desconfio que todos os cachorros que me acompanharam, e acompanham, acreditam que eu seja uma espécie de deus. Daí sua imensa fidelidade.
É de minhas mãos que recebem o alimento de cada dia e das mesmas mãos o carinho inesgotável. Nunca discutem os caminhos que escolho; ao contrário, aceleram o passo, a fisionomia escancarada em júbilo, seja em pastagens abertas, estradas, ou mesmo em mato fechado e espinhento; atravessando várzeas e ribeirões, subindo e descendo barrancos ou ainda confrontando o território de rebanhos de animais muito maiores que nós. Acompanhados de seu amigo supremo, sentem-se mais que protegidos ou poderosos, sentem-se livres.
Também notei que sempre se aproximam de mim quando estão feridos ou indispostos, confiando que seu deus é também uma espécie de curandeiro. E nisto, por diversas vezes, impotente, este falso deus mostra seus limites ridículos, e falha, como qualquer deus verdadeiro.
O que os cães talvez não saibam é que o deus deles, como outro deus verdadeiro qualquer, os admira na mesma medida, e os considera como irmãos espirituais. E continua sonhando com eles muito depois de terem separado seus passos.
Lindo texto!
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