quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relato sobre uma briga de galos

não há apostas nem platéia
o encontro se dá
sobre folhas secas e faíscas
debaixo de velha jabuticabeira

é rixa e
não rinha

o pequeno garnizé branco enfrenta um índio
mais de duas vezes o seu tamanho
(e quem conhece essas aves
sabe que não há desvantagem)
devem disputar território
em meio à quantidade maior
de galinhas
mesmo suas filhas

os galos acreditam estar dominando partes
deste mundo
e são perfeitamente destemidos
brigam com facas
cada um suas duas esporas
e os bicos secos entre olhos
que miram outros olhos
como alvos

é uma violência coreográfica e limpa
ensaiada e ancestral
mínima
e no fim não há morte
às vezes nem sangue
e só eles irão entender
o resultado do confronto

parece haver regras
porque há muitas pausas
e os gestos e posições próprios das pausas
as cabeças baixas como touros
cristas feito aspas
e os pés raspando o chão
um pequeno bailado circular
os pescoços se transformam
em cocares abertos à fúria
e então os saltos e as lâminas no ar
e os jatos vermelhos de barbelas
e os estalos das asas no ar
nocauteando o ar

é difícil ao olhar perceber onde se cortam
tão difícil quanto entender a rapidez de um galo
sobre uma galinha
e onde se tocam
mas acontece
para que resolvam as partes do mundo
e as partes dos corpos se encontram
com precisão afiada
no sexo como na luta

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