sábado, 28 de janeiro de 2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Lá na padaria

O Dito me cumprimentou e sentou ao meu lado na padaria. Nunca temos muito o que conversar. Mal nos conhecemos. Ele conta alguma coisa que não me interessa e eu respondo qualquer coisa em que ele não presta atenção. Ou então é o contrário. É sempre assim. Não me interesso muito em saber o pasto de quem ele anda roçando e quanto está cobrando, ou que a filha de alguém que eu nem conheço já anda biscateando por aí.
Hoje ficamos olhando pra televisão, enquanto mostravam dois prédios que caíram atrás do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, muito longe daqui e do frio que está fazendo esta noite.
- Aposto como foi você que vendeu areia pra essa obra, há uns duzentos anos - eu disse pra ele, tentando ser engraçado. Ele nem ouviu, pediu mais um café pra Marcela, que ia passando com uns pratos sujos e falou que ele ia ter que esperar.
A repórter, enchendo linguiça, diz que os prédios caídos tinham aberto um buraco naquela parte da cidade.
Como pode ?, fico pensando. Não é a ausência dos prédios que faz um buraco naquele lugar; foi, muito antes, a presença deles que formou um volume inquieto e agressivo no espaço e na paisagem, e esse volume se pretendia definitivo. Agora, alguma coisa volta a ser mais próxima do que era originalmente.
Prédios são feios. E parecem perigosos. Não gosto de prédios.
Penso em comentar isso com o meu vizinho de balcão, mas o café dele acaba de chegar e ele já está fofocando alguma coisa com a atendente que voltou e está mais interessada no serviço dela que nas intimidades que ele disfarça.
Prédios subindo ou caindo, tanto faz, é uma pena que não aprendemos a dividir o chão de forma justa e equilibrada.
O Dito termina o café e olha para mim. Acho que ele pode estar pensando alguma coisa parecida. Então diz:
- Me dá uma carona ?
É sempre assim. Então pagamos e vamos embora.

sábado, 7 de janeiro de 2012

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A sociedade contra o Estado

Por volta das nove da noite da quarta-feira, 21 de dezembro de 2011, eu era o único paciente no saguão de espera do velho prédio do Instituto Penido Burnier, na avenida Andrade Neves, centro de Campinas, a alguns quarteirões da cratera que sobrou da demolição da velha e detestável rodoviária da cidade; e a outros tantos, em sentido oposto, da antiga e bem conservada estação ferroviária.
Na noite anterior, comecei a sentir alguma dor em meu olho direito. Achei que fosse algum cílio ou cisco, e fui me deitar. Quando acordei, reparei que a dor continuava e que os vasos na área branca do olho estavam bem avermelhados. Não dei importância, lavei o rosto e atravessei o dia.
No início da noite, ao passar em frente a um espelho, notei meu olho ainda mais avermelhado. Aproximei o rosto pra ver se encontrava alguma coisa que pudesse ser removida e percebi que parte da borda da íris estava esbranquiçada e levantada. Mas eu estava enxergando perfeitamente.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi Tostão, o jogador de futebol: descolamento da retina. Lutadores de boxe também acabam sofrendo disso com alguma frequência , por conta das porradas. Mas eu, quando muito, ultimamente, só levo pancadas em brincadeiras com os cães. Depois me lembrei de meu avô materno, que sofreu de glaucoma durante os últimos anos de vida, tendo-a terminado praticamente cego. E uma das causas do glaucoma é a hereditariedade.
Telefonei pra minha mulher, em São Paulo, e foi ela que se lembrou do velho instituto, referência nacional em oftalmologia. Ela me disse para não deixar de ir. Mesmo assim, pensei em não ir, mas tanto o caso do meu avô quanto o do velho craque da Copa de 70 me fizeram pensar melhor. Como a maioria dos brasileiros, eu sei que Tostão teve que encerrar sua gloriosa carreira no futebol por causa do descolamento da retina sofrido em campo. E para o meu nada invejável ou glorioso trabalho com fotografia, uma lesão como essa poderia ser igualmente fatal. E lá fui eu.
No caminho, ainda antes de entrar na cidade, o rádio tocou alguma coisa de que gostei, uma dupla com Amaraí, o mesmo de Belmonte e Amaraí. Gosto muito da gravação que fizeram de ‘Mercedita’, e devo ter um CD da dupla ainda, em algum lugar. Cheguei a fotografar Amaraí há alguns anos, quando tocava acompanhado por um de seus filhos. Mas não consegui ouvir bem o nome de seu parceiro na música que fui ouvindo no rádio, a caminho do hospital. Gostei das sanfonas. Das vozes, também, mas, principalmente, das sanfonas. Não tem instrumento mais bonito que sanfona.
Estacionei o carro no pátio interno do velho prédio do instituto, entre os troncos de duas imensas e antigas árvores. Uma placa logo ao lado dizia que o instituto existe desde 1920. Mas o prédio não é tão antigo assim. As árvores, sim, talvez ainda tenham conhecido uma velha Campinas, anterior à República, e os velhos casarões e as famílias e os viajantes da velha Andrade Neves, que ainda hoje preserva um tanto de sua antiguidade. Algumas espécies de árvores sempre podem ser mais que centenárias. Não sei o que eram aquelas. Não reparei em nada além do vulto largo e escuro dos troncos das duas, pesando sobre a noite tranqüila e o chão coberto de brita.
Um gato branco descansava tranquilamente, pouco atrás de onde estacionei, numa área do terreno onde chegava a luz de um poste. Recolhia uma das patas dianteiras dobrada sob o peito. Moveu a cabeça para me assistir descendo do carro, com o olhar superior e desinteressado dos gatos, mas ainda estava no mesmo lugar e na mesma posição quando fui embora, muitos minutos depois.
Havia três moças sentadas num sofá da recepção. Três moças gordas e bem humoradas. Elas conversavam e não dava para saber qual das três poderia ter um olho vermelho ou um potencial descolamento da retina como eu. Devido ao horário, apenas a luz indispensável estava acesa por ali, dando ao ambiente todo um ar bastante nostálgico e cinematográfico, e logo me vi envolvido por uma certa regressão ao tempo mais remoto daquelas paredes altas e móveis antigos. A própria conversa das três mulheres contribuía pra isso. Me senti dentro de um velho filme da Vera Cruz ou coisa parecida.
O recepcionista me atendeu imediatamente. Anotou meu nome, idade, profissão, e outras coisas, em duas pequenas fichas. Depois me pediu pra assinar uma delas. É bastante simples responder ‘fotógrafo’ quando perguntam minha profissão, mas isso não quer dizer que eu me sinta exatamente um. Pensava nisso, quando ele me perguntou:
- O que você tem ?
- É o que eu pretendo saber quando sair daqui.
Ele se levantou e olhou para o livro que eu havia trazido para enfrentar a espera, repousado sobre o balcão. Então me indicou o espaço todo ao redor:
- É só esperar.
O médico apareceu e chamou uma das moças. Duas se levantaram e seguiram para o consultório, logo no início do imenso corredor de luzes apagadas.
Caminhei até os fundos e atravessei uma porta alta e cheguei a um pátio iluminado pela própria noite. De um lado, na direção da Andrade Neves, havia uma outra ala da clínica, que estava fechada. Acima de mim, à minha frente, o volume maciço e largo do velho prédio, de três ou quatro pavimentos, cheio de janelas apagadas. Logo voltei para dentro, atravessei o saguão, e me sentei num dos bancos de madeira, à entrada, do lado de fora. Uma das lâmpadas fluorescentes, acesas, estava logo acima; era hora de sentar, ler, e aguardar a minha vez.
Levei comigo o livro de ensaios do antropólogo Pierre Clastres, ‘A sociedade contra o Estado’. Era um momento tão ideal quanto qualquer outro pra ‘ouvir’ a conversa do velho e querido Clastres.
A moça que ficou de fora estava agora de pé, logo ao lado, conversando com o recepcionista, sob a noite antiga do centro de Campinas. Ela contava coisas pessoais, com o sotaque acentuado do interior de São Paulo, uma história qualquer de raiva e ciúme por que estava passando. Ele estava apoiado na parede, com uma das mãos no bolso da calça e isso também pareceu igualmente antigo. Era como se toda a minha visão das coisas estivesse deslocada no tempo. Ou talvez fosse apenas um olho dolorido.
Me voltei para o livro:
“Supõe-se que ninguém deixe de pensar na dureza da lei. Dura lex sed lex. Diversos meios foram inventados, segundo as épocas e as sociedades, a fim de conservar sempre fresca a recordação dessa dureza. Entre nós, o mais simples e recente foi a generalização da escola, gratuita e obrigatória. A partir do momento em que a instrução se impôs a todos, a ninguém mais assistia o direito de, sem mentira – sem transgressão -, alegar o seu desconhecimento. Pois, por ser dura, a lei é ao mesmo tempo escrita. A escrita existe em função da lei, a lei habita a escrita; e conhecer uma é não poder mais desconhecer a outra.”
Isto e a moça, ao lado, falando mal do homem que a importunava. Disse que ficava com vontade de matá-lo. Pensei no quanto ela devia estar mais próxima dos programas de TV que mostram diariamente crimes passionais do que daqueles pensamentos nas páginas abertas sobre meus joelhos. Então, ela disse:
- Mas o que me irrita é o que acontece entre mim e ele...
‘Entre mim e ele’. Português raro pra quem acompanha crimes passionais na TV. Aquela moça era instruída. Logo, não podia se furtar ao conhecimento das leis e de sua dureza. Era menos provável que matasse alguém e se tornasse protagonista de um daqueles programas. Mas isto foram apenas especulações rápidas, e, mais que isso, preconceito puro. As duas outras moças apareceram e o médico gritou meu nome lá dentro. Entrei no consultório e ouvi a mesma pergunta outra vez:
- O que você tem ?
O que me fez imaginar que boa parte dos pacientes que vão a hospitais já chegam com o próprio diagnóstico. Eu não tinha o meu.
- Meu olho amanheceu vermelho e dolorido e agora está com uma estria meio esbranquiçada.
Me mandou sentar com o queixo apoiado naquele aparelho meio esquelético, a testa freada por uma cinta fina. Uma das gordinhas deve ter experimentado a mesma coisa um pouco antes. Ele acendeu uma luz e me pedia para movimentar o olho de um lado a outro. Tocou minha pálpebra. Nunca gostei de gente estranha tocando em mim. Mesmo médicos. Não sinto conforto algum em contato físico, com exceção do amor. Mas não pensei nisso na hora, apenas afastei o rosto por impulso. Ele disse alguma coisa, voltou a me tocar a pálpebra e continuou o exame.
O silêncio parece se estender sozinho, nessas horas, criando suspense. Médicos são deuses de um certo suspense, de muito conhecimento, e do vasto território das possibilidades que ignoram.
O calor da luz do aparelho também me incomodou. Tenho convivido tanto com cachorros, há tantos anos, que acho que me comporto um pouco com médicos como eles com veterinários.
Meu olho esquerdo também foi examinado.
- Não é nada. Só uma inflamação.
Disse o nome clínico da área afetada pela inflamação mas não o entendi. Disse que passaria logo. Havia umas duas dúzias de caixas de colírio idênticas, enfileiradas sobre a mesa dele. Pegou uma e anotou na própria embalagem quantas vezes eu deveria pingar, durante cinco dias. Recomendou compressas de água fria. Então olhou para o livro que eu havia trazido, sobre a mesa, ao lado do pequeno exército de colírios. Olhou para mim. Eu e Pierre Clastres no velho prédio de um antigo instituto campineiro, a algumas centenas de metros da velha estação ferroviária. As noites são sempre carregadas de antiguidade.
Como eu disse antes, ao sair, lá estava o gato, na mesma posição, no mesmo lugar.
As três moças haviam partido. Levaram com elas, para sempre, suas histórias e seus futuros, que jamais conhecerei.
Entrei na velha caminhonete suja de terra, poeira e bosta de vaca e voltei a atravessar a cidade, até deixá-la para trás. As ruas sem muito movimento sob a noite que conhecem tão bem.

(Foto: Avenida Andrade Neves em 1930, com a estação ferroviária ao fundo - Acervo Municipal de Campinas)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O falso e limitado deus dos cães

Desconfio que todos os cachorros que me acompanharam, e acompanham, acreditam que eu seja uma espécie de deus. Daí sua imensa fidelidade.
É de minhas mãos que recebem o alimento de cada dia e das mesmas mãos o carinho inesgotável. Nunca discutem os caminhos que escolho; ao contrário, aceleram o passo, a fisionomia escancarada em júbilo, seja em pastagens abertas, estradas, ou mesmo em mato fechado e espinhento; atravessando várzeas e ribeirões, subindo e descendo barrancos ou ainda confrontando o território de rebanhos de animais muito maiores que nós. Acompanhados de seu amigo supremo, sentem-se mais que protegidos ou poderosos, sentem-se livres.
Também notei que sempre se aproximam de mim quando estão feridos ou indispostos, confiando que seu deus é também uma espécie de curandeiro. E nisto, por diversas vezes, impotente, este falso deus mostra seus limites ridículos, e falha, como qualquer deus verdadeiro.
O que os cães talvez não saibam é que o deus deles, como outro deus verdadeiro qualquer, os admira na mesma medida, e os considera como irmãos espirituais. E continua sonhando com eles muito depois de terem separado seus passos.

sábado, 5 de novembro de 2011

Crânio bovino

(Foto: E.C. / neg. 35mm - 1999)

sábado, 17 de setembro de 2011

Vaca descansando debaixo da sombra de uma santa-bárbara

- Quando você voltou da cidade ?
- O quê ?
- Você não tinha ido até a cidade ?
- Fui buscar a Ida no Posto.
- E o capim ?
- O que tem o capim ?
- Conseguiu uma moedora emprestada ?
- Não veio ninguém consertar ?
- Eu não tinha dito a você ?
- Dito o quê ?
- Onde você anda com a cabeça ?
- Você não disse que o Rigério vinha consertar a nossa ?
- Ele não falou com você ?
- Quando ? Eu disse que ia até a cidade !
- Vocês não se encontraram ?
- Hoje ? Nem pensei em passar por lá. Vocês não combinaram por telefone ?
- Não. Quer dizer, é melhor alguém buscar algum capim pra próxima ordenha. Você pode ir ?
- Tá perguntando ou sugerindo ?
- Eu é que tenho que ir ?
- O que é aquilo ?
- Onde ?
- Não tinha uma cabeça faltando lá embaixo ?

terça-feira, 9 de agosto de 2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A floresta alagada, na vazante

'Furo' do rio Solimões.
(Foto: E.C.)

Rio Negro, Amazonas

(Foto: E.C.)

sábado, 6 de agosto de 2011

Manaus

(Foto: E.C.)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Santa Beatriz e o Retábulo da Imaculada Conceição

Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, São Paulo.
"A igreja de Nossa Senhora da Luz apresenta dois aspectos únicos entre todos os templos de São Paulo: tem duas frentes e a entrada para o corpo da igreja é lateral. A entrada primitiva está hoje nos jardins do convento e, portanto, proibida. Por isso, são duas as torres, o que é explicado pelo fato de que, em tempos recuados, a face da igreja já se encontrava de fronte ao caminho natural que era 'em direção ao Tamanduateí', de acordo com Nuto Santana. A avenida Tiradentes então não existia.
A igreja deve ser vista pelos seus retábulos, pelo seu corpo gradeado, pelos seus dois confessionários e pelo aspecto exterior de casarão colonial. A imagem de Nossa Senhora da Luz que lá se encontra, segundo a tradição, é a mesma que se venerava na antiga ermida do campo da Luz. Sabe-se que existem atrás daqueles muros que não transpusemos, um cemitério particular, aspectos curiosos de arquitetura, peças históricas de valor e, sobretudo, documentos sobre a edificação do convento, seus estatutos, trabalhos de síndicos. Mas os muros de taipa impedem uma intimidade maior. Igreja de renome, de visitantes ilustres. D. Pedro II e sua mulher d. Maria Tereza Cristina e a princesa Isabel visitaram-na em 1846 e aí viram os túmulos de frei Galvão e de frei Lucas da Purificação. Há uma imagem da Santa Faustina, mártir, doada pelo papa Pio IX.
A solidão lá dentro do recolhimento é completa e então nos contentamos com a interessante igreja de Nossa Senhora da Luz, de tão grande quanto ilustre tradição histórica. De quase quatrocentos anos de tradição histórica, marcada na carta do venerável Anchieta, satisfeito, num domingo de novembro de 1579, por Domingos Luiz estar acabando a igreja."
Igrejas de São Paulo, Leonardo Arroyo - Editora José Olympio, 1954
(Foto: E.C.)

Santo Antonio, a Ascensão de Nossa Senhora, e o Oratório do Cristo Ressucitado

Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, São Paulo.
(Foto: E.C.)

domingo, 17 de julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pescaria

Meu amigo Adrian está de férias e veio passar uns dias na casa dos avós. Ele tem nove anos e me conhece desde que nasceu. Ou eu conheço ele desde que ele nasceu, tanto faz. Hoje veio me convidar pra pescar. Como num dia de semana à tarde todo o mundo tem muita coisa séria pra fazer, eu deixei de lado qualquer outra possibilidade e aceitei o convite. Por que achar que o convite de uma criança é menos sério que as obrigações de um adulto ? Não é. E eu fiquei muito honrado com o convite. No caminho, fomos contando coisas um ao outro, não exatamente mentiras, mas, sabe como é... isca, linha, vara, anzol, tudo em volta, a gente sempre comete alguns exageros. Ele me disse que é alérgico a cobras e abelhas. Eu disse que achava que todo o mundo é um pouco. Depois disse que gostava muito de lambari frito, mas que o negócio dele, mesmo, no almoço ou na janta, é frango. Eu achei justo, e assim fomos. As cachorras foram junto, entraram na água, sumiram, se esbaldaram até cansar. E o meu amigo de 9 anos reclamando que não gosta de levar cachorro em pescaria, que fazem muita bagunça, barulho, assustam os peixes, atrapalham, ou seja, ele é um pescador muito mais sério que eu, que gosto de levar a cachorrada pra todo canto e me divirto mais com a bagunça deles do que em ficar olhando a linha parada esperando algum peixe fisgar. Então eu disse a ele - e fui categórico - que se quisesse pescar comigo ia ter que fazer essa concessão, ou bem eu vou com a cachorrada ou não vou.
Mas não teve discussão nem cara feia, nos entendemos muito bem. E acho que fizemos com um pedaço de tarde o que melhor poderíamos ter feito.
Eu levei a câmera, claro, pra registrar os momentos heróicos com os peixes gigantescos e brigalhões que tiraríamos da água.
Bom, depois de dois pontos mal escolhidos - e nenhum peixe -, resolvemos pegar nossas coisas (levamos biscoitos, água, e um enxadão pra cavocar minhocas), atravessar um brejo, e tentar a sorte num outro tanque que, só por ser mais longe, parecia mais promissor e cheio de pesca. Quando chegamos do outro lado do brejo, reparei que o meu companheiro estava descalço.
- Cadê os teus chinelos ?
- Afundaram lá no meio.
- E por quê você não me avisou ?
- Ah...
- Então vai armando as coisas enquanto eu volto pra procurar...
Levou algum tempo, mas encontrei e voltei sem atolar muito mais. Ele pegou os chinelos, olhou pra mim, e falou:
- Tuas calças tão molhadas.
- É, e a gente ainda não pegou nenhum peixe.
Então nos sentamos, e nos dedicamos ao principal.
E a pescaria foi um sucesso !
Pelo menos para os peixes.
Eu não peguei coisa alguma além de umas raízes de taboa. E o meu companheiro pegou um carazinho pouco maior que a mão dele e pouco menor que a minha. Aí ficou com dó e me pediu pra soltar ele do anzol e devolver pra água.
Beiço de cará, barro, minhoca, as mãos da gente vão ficando com um cheiro que dá até fome.
Em seguida ele ainda fisgou um outro, mas soltou sozinho e caiu perto da margem, dentro da água.
- Era um bagre.
- Eu acho que era uma traíra.
- É, eu também acho que era uma traíra.
Coisa de pescador.
Ele tinha levado uns amendoins e eu uns biscoitos. Ficamos comendo, bebendo de uma água e olhando pra outra. Quando o silêncio começou a aborrecer até as minhocas, e o sol começou a baixar, meu amigo disse que queria ir embora.
Recolhemos tudo, chamamos as cachorras, e voltamos felizes.
Eu disse que tinha gostado muito. Ele disse que também gostou, e, mais do que isso, perguntou se podemos voltar amanhã. Eu disse que ainda não sabia nada a respeito de amanhã, mas que tinha achado a nossa pescaria muito boa. Ele concordou.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nove frangos brancos

chocados há menos
de dois meses
vistos celebrados
pingos amarelos
seguindo a mãe
pelas sombras do pomar
agora nove frangos
brancos
que não temem
a minha presença
e tanto importam
ao meu olhar

sábado, 18 de junho de 2011

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relato sobre uma briga de galos

não há apostas nem platéia
o encontro se dá
sobre folhas secas e faíscas
debaixo de velha jabuticabeira

é rixa e
não rinha

o pequeno garnizé branco enfrenta um índio
mais de duas vezes o seu tamanho
(e quem conhece essas aves
sabe que não há desvantagem)
devem disputar território
em meio à quantidade maior
de galinhas
mesmo suas filhas

os galos acreditam estar dominando partes
deste mundo
e são perfeitamente destemidos
brigam com facas
cada um suas duas esporas
e os bicos secos entre olhos
que miram outros olhos
como alvos

é uma violência coreográfica e limpa
ensaiada e ancestral
mínima
e no fim não há morte
às vezes nem sangue
e só eles irão entender
o resultado do confronto

parece haver regras
porque há muitas pausas
e os gestos e posições próprios das pausas
as cabeças baixas como touros
cristas feito aspas
e os pés raspando o chão
um pequeno bailado circular
os pescoços se transformam
em cocares abertos à fúria
e então os saltos e as lâminas no ar
e os jatos vermelhos de barbelas
e os estalos das asas no ar
nocauteando o ar

é difícil ao olhar perceber onde se cortam
tão difícil quanto entender a rapidez de um galo
sobre uma galinha
e onde se tocam
mas acontece
para que resolvam as partes do mundo
e as partes dos corpos se encontram
com precisão afiada
no sexo como na luta

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sequência

(Foto: E.C.)

domingo, 1 de maio de 2011

Barragem atrás de barragem

barragem atrás de barragem
um rio deixa de ser rio

vi um caboclo dizendo:
o homem tem conhecimento
mas não tem poder

São Francisco
Tietê
Madeira
Xingu
Tapajós

barragem atrás de barragem
um rio deixa de ser rio

vi um caboclo dizendo
dos peixes que pescava
e disse:
agora tem geladeira
tem onde guardar o peixe
mas cadê o peixe ?
o rio tá morto !

barragem atrás de barragem

Paranapanema
Iguaçu
Paraná
Mucuri

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Campinas

(Foto: E.C.)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Por escrito

a linguagem escrita
é desnecessária

ela foge do presente
com pretensões de futuro
e distância

ela mente e disfarça
e erra ou atrasa
muito mais do que acerta
nas verdades que supõe
carregar ou fazer
durar

ela não inventa os nomes
e não consegue transmitir a pronúncia exata
dos homens de cada tempo
e lugar e eles não a descobrem
como descobrem a fome

é fria
feito uma coisa
morta

domingo, 24 de abril de 2011

Os jacus

(Foto: E.C.)